"Hoje em dia todo mundo é fotografo" - Uma conversa com os fotógrafos lambe-lambe de Feira de Santana/BA

 

Na praça Bernadino Bahia, conhecida em Feira de Santana/BA como  praça dos lambe-lambe, já não se encontram mais as antigas formas de fotografia pelas quais a praça foi apelidada.

O nome, lambe-lambe, vem de um antigo costume de lamber as fotos para ver se ainda restava nelas algum resquício de sal do fixador, conforme conta Erivaldo, 62 anos.

Onde antigamente existiam trinta e cinco barracas que ofereciam o serviço de fotografias 3x4, tiradas, reveladas e devidamente lambidas, hoje concentra pouco mais de 12 mini estúdios, alguns fechados, outros resistindo.

 
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As antigas câmeras de madeira com panos pretos foram substituídas por pequenas máquinas digitais compactas. Os químicos e as lambidas, por pequenas impressoras portáteis.

Dentre os fotógrafos que ainda resistem no local, a opinião é unânime: hoje em dia todo mundo é fotógrafo. Para João, “basta um celular, ou uma máquina digital, tirar uma foto com uma luz ruim, e corrigir tudo no computador. Hoje em dia já não se estuda mais fotografia.”

Zé Carlos, 66 anos, 54 anos de praça. Aprendeu a fotografar com o pai fotógrafo e desde os 12 anos já estava trabalhando com lambe-lambe. Não pensa em fazer outra coisa, “enquanto for pra ir remando a gente vai”.  Para ele, a fotografia é um presente de Deus na vida, “é uma maneira de sustentar a família, a estadia, e continuar fazendo o que gosta”.

João, 67 anos, 35 anos de praça. Trabalhava em casa de material de construção e começou a fotografar por incentivo de um amigo. Me contou sobre a origem da palavra fotografia e da sua criação com Daguerre. “Falta profissionalismo na profissão. Se você perguntar por aí o que é fotografia eles não sabem, eu sei, eu sei quem inventou, eu sei que ano, pergunta aí o que é fotografia, qual a origem da palavra fotografia... Não sabem! Burro! Eu li, aprendi e gravei. Eu lembrava data, lembrava tudo, mas é tanta coisa na cabeça que eu esqueci.” Para ele, a fotografia “é de muita significação para uma pessoa, só que as pessoa não valorizam. A fotografia em si mesmo, não é regulamentada, era pra ter um sindicato nacional, então era pra ser hoje uma profissão regulamentada, respeitada, por que a fotografia em si, ela nunca deixou de ser fotografia, tem a máquina com a tecnologia toda, mas a fotografia não acabou ela continua sendo a fotografia.”

Valteni, 53 anos, 37 anos de praça. Ia levar refeições para o pai e irmãos que ali trabalhavam, foi se interessando, aprendeu a profissão e ficou. Para ele a fotografia “é tipo assim, é tipo uma profissão, é uma arte e uma profissão ao mesmo tempo, é uma coisa muito bacana que aconteceu na minha história. Trabalho com fotografia não é porque eu quero, é porque eu gosto, é na fotografia que eu dou o meu melhor, trabalho pra fazer um serviço bem direitinho. Sempre dependi primeiro de Deus, depois da fotografia.”

Erivaldo, 62 anos, 42 anos de praça. Irmão de Valteni, aprendeu a lamber as fotos com o pai, e desde então fez da fotografia sua profissão. Me contou sobre o processo de fotografia e revelação de antigamente e da origem do nome lambe-lambe. “A fotografia é um ganha pão e é arte né, fotografia hoje é arte, se fazer um trabalho bem feito de qualidade. As fotos impressas para as pessoas é uma recordação. Gravou em cd, arranhou danificou, o pen drive a mesma coisa, então você faz a foto no papel e fica. Hoje tem 38 anos do meu casamento e as fotos estão lá, intactas.”

Neuzete, 45 anos, 20 anos de praça. Se sente uma heroína por ser uma das duas únicas mulheres que ocupam o local. “Pessoal que chega aqui dá preferência pra mulher. Tem mulher que dá preferência pra mulher, homem que dá preferência pra mulher. As mulheres chegam aqui eu arrumo, arrumo o cabelo, e elas dizem: 'É por isso que eu prefiro tirar foto com mulher, mais do que com homem', e ai eu me sinto uma heroína.” Para ela a fotografia “é muita coisa, é uma arte, que você tira, guarda como lembrança, as vezes que vem de familiares de outros lugares você tira. A foto ai, pra mim significa um monte de coisa.”

Evandro, 54 anos, 45 anos na praça. Começou a trabalhar no local aos 9 anos ajudando a lavar fotos em preto e branco, aprendeu o ofício e de lá nunca mais saiu. Acredita que aquele tipo de fotografia 3x4 morreu, e, apesar de ter sustentado toda sua família trabalhando na praça, hoje utiliza o local mais como ponto de encontro, do que como fonte de sustento. Para ele “é uma liberdade, uma coisa gostosa de outro mundo, que se você tem que fazer aquela fotografia tem que fazer com amor, com carinho, e registar os momentos, os momento bom, os momento ruim, então você registrando aquilo ali, é uma felicidade, é uma alegria. Quando eu bato uma fotografia aqui, que eu faço a fotografia, eu fico alegre, e quando eu saio também pro campo, que eu bato umas foto dos jardim, das planta, é uma coisa de outro mundo, uma felicidade. Eu trabalho com fotografia com amor, eu bato minha fotografia no jardim, em um trem, no rio, só por amor, eu faço questão, eu tenho prazer de fotografar. Por amor mesmo.”